segunda-feira, 26 de outubro de 2015

ÍDOLOS ETERNOS - Fernandão


Foto: Mauro Schaefer/AFP

A faceta de super-herói é dada para aqueles que, de alguma maneira, entram no imaginário e no coração de uma comunidade, que, na maioria dos casos, está em apuros ou padece de cuidado e de carinho. Na coluna ídolos eternos de hoje falaremos de um ser humano que contemplou essa denominação. Fernando Lúcio da Costa, o Fernandão, conseguiu transformar uma imensa nação que andava cabisbaixa em uma nação feliz. A geração de crianças e adolescentes que exibe com orgulho a camiseta do Internacional nos dias de hoje, começou essa devoção muito por conta desse personagem ímpar, que entrou para a história do clube muito antes do que esperava. Dizem que para a idolatria ser consolidada é necessário que a pessoa deixe o estágio da vida para ingressar na eternidade. Fernandão provou que não. Antes mesmo de sua trágica morte, em 2014, ele já era o super herói colorado. E que teve seu destino traçado para ser o homem que resgataria a grandiosidade do Internacional. 

(Foto: Miguel Schincariol/LANCE!Press)

       Porém, como em toda história de amor, a trajetória do casal começa em locais separados. Nascido em 18 de março de 1978 em Goiânia, o garoto Fernando desde cedo mostrava gosto pelo jogo da bola. Alto e com ótima capacidade física, Fernandão chegou em 1990 para a base do seu time do coração: O Goiás. No início, pensava em atuar na zaga: "O meu primeiro treinador me colocou como líbero em um esquema 3-5-2 e me disse: a bola aérea é tua pela altura. Mas a saída de jogo também é tua, pela qualidade. [...]  Costumo brincar dizendo que a qualidade se sobressaiu, pois virei meia-atacante!", declarou Fernandão em uma entrevista para o Jornal Zero Hora, em 2006. A altura influenciava nos gols de cabeça, é verdade. Mas a habilidade de Fernandão era notória, com demonstrações de muita qualidade com a bola nos pés, como nesse gol do vídeo abaixo, em um jogo pelo Campeonato Brasileiro da Série B de 1999, contra o Bahia:
                                     
                                    

        Foi no Esmeraldino Goiano que Fernandão passou a ter destaque no cenário futebolístico brasileiro. Entre 1995 e 2001 conquistou cinco Campeonatos Goianos, duas Copas Centro-Oeste e um Brasileiro da Série B na posição de meio-campo. As boas atuações despertaram o interesse do futebol Europeu. Em 2001 Fernandão embarcou para a França para atuar pelo Olympique de Marselha, injetando uma quantia financeira considerável  nos cofres do Goiás. A passagem  pela França pode ser descrita como decepcionante para Fernandão. Com seguidas lesões no joelho que culminaram em poucas atuações, um empréstimo para um clube de menor expressão era inevitável. Em 2003, o Touluse, clube inexpressivo do país, acertou um empréstimo com o Olympique. Apesar da fragilidade da equipe, Fernandão conseguiu se destacar, marcando gols importantes. E isso despertou o interesse do futebol brasileiro para uma repatriação. Com o término do empréstimo, Fernandão recebeu algumas propostas de clubes brasileiros para voltar. Foi nesse ponto de sua vida que o Sport Clube Internacional entrou para nunca mais sair. E tudo tem início graças a figura do Ex-presidente colorado Fernando Carvalho. Homônimos, e com uma qualidade em comum: a seriedade e a obstinação.

 "Durante a leitura de uma notícia na internet, vi que o Fernandão estava prestes a voltar para o Marselha, mas tinha propostas de Fluminense, Flamengo e Atlético Mineiro. Mesmo assim, resolvi ir até Goiânia para apresentar o projeto futuro do Internacional, e  lhe fazer uma proposta. Vi que estava tratando com uma pessoa séria  quando ele me disse que queria fazer do Inter um clube modelo para o Brasil junto comigo. Ali percebi que estava contratando um ídolo"

(Trecho do livro "De Belém a Yokohama", de autoria do ex-presidente colorado Fernando Carvalho, responsável pela contratação de Fernandão.)  

Foto: Valdir Friolin / Agência RBS
               Em meados de 2004, Fernandão chegava a Porto Alegre para defender o colorado. Muitos duvidaram de sua contratação, dizendo que as lesões sofridas na França atrapalhariam as atuações no Inter. A torcida colorada estava ressabiada. O último título de expressão do clube havia sido o da Copa do Brasil de 1992, e a última partida internacional em que o Inter havia disputado havia ocorrido em 1993. Em contrapartida, o maior rival, o Grêmio, havia vencido tudo na década de 1990 e início da de 2000. Mas o destino fez com que a "gangorra Gre-Nal" virasse justamente naquele momento. Assim como o marco de início do Rolo Compressor, time do Inter que venceu tudo no âmbito regional nos anos 1940, é a chegada do ídolo Tesourinha, o marco para o Inter campeão do Mundo é a chegada de Fernandão. Logo em sua estreia, a uma prova de fogo seria posta a ele: um clássico Gre-Nal. E aquele era um Gre-Nal especial. Haviam sido marcados 998 gols na historia dos clássicos até aquele 10 de julho de 2004, dia em que seria realizado o de número 360. A expectativa era uma só: de qual clube seria o gol 1000? E quem entraria para a história ao marcá-lo?Foi naquele jogo que o super-herói colorado começou a salvar a honra de sua nação. No intervalo do jogo, o técnico Muricy Ramalho deu a ordem: "Fernandão, entra e briga no cabeceio com a zaga deles. Se tu ganhar uma, tu mete o gol". E foi exatamente o que ocorreu. Após a abertura do placar, um cabeceio do goiano alto entrou para a história do Rio Grande do Sul:




           Dali em diante a sua imagem passou a ser a de ídolo colorado. Ostentando a braçadeira de capitão, Fernandão comandou o Inter em uma brilhante campanha na Copa Sul-Americana de 2004, quando o clube chegou até as semifinais. E adivinha quem marcou o primeiro gol colorado em um duelo internacional desde 1993? Na partida Inter 1x0 Júnior - COL, o ídolo deixou sua marca logo no começo do jogo: 

            O ano de 2005 traria o Inter para a evidência nacional novamente. Com uma campanha brilhante no Campeonato Brasileiro, o Inter do capitão Fernandão duelava taco a taco com o Corinthians, que contava com os dólares de uma parceria com o fundo de negócios MSI. as boas atuações levaram Fernandão para a Seleção Brasileira, sendo convocado para o amistoso contra a Guatemala. Apesar de não ter uma renda tão alta quanto e de não possuir jogadores conhecidos como os do clube paulistano, a liderança era do clube gaúcho. O tão sonhado título nacional estava próximo. Porém, uma fraude na arbitragem do Brasileirão daquele ano transformou o sonho em pesadelo. Após partidas anuladas e uma série de discussões, o Inter teve de se contentar com o vice campeonato nacional da temporada. Apesar da tristeza, o prêmio consolação era uma vaga na Copa Libertadores da América, competição que o clube não disputava desde 1993, e que nunca havia vencido. E, para 2006, a promessa era uma só: transformar o clube em um campeão continental e mundial. E o capitão colorado foi peça chave na consolidação dos dois maiores títulos da história do clube. 
              A brilhante campanha na Libertadores 2006 foi consolidada com atuações marcantes do Capitão. Gols decisivos,  assistências e a tradicional liderança provaram que Fernandão estava na história do clube. No último e decisivo duelo contra o São Paulo, em 16 de agosto de 2006,  a atuação impecável rendeu o título e o prêmio de melhor jogador da partida para o craque colorado, em uma noite mágica no Beira-Rio: 






Foto: Edson Vara (PLACAR)



               Definitivamente seu nome estava cravado na história do clube. O desafio era maior a partir de agora. O Mundial Interclubes é a maior competição para um clube do mundo vencer. E o Inter estava credenciado para brigar pela taça. Apesar de estar focado no Mundial de Dezembro, o Inter abocanhou em 2006 mais um vice campeonato nacional, perdendo o título para o São Paulo. E, após a derrota no Brasil, o olhar colorado era um só: O Japão. Os adversários eram os grande vencedores dos outros continentes. Mas Fernandão e companhia estavam com o destino traçado para trazer a maior glória da história do Inter para Porto Alegre. 
                No primeiro confronto, contra o campeão Africano, Al Ahly, Fernandão teve boa atuação. Não brilhou, mas foi participativo na vitória por 2x1 contra a equipe egípcia. Faltava a glória ser consolidada. E o destino resolveu brincar mais uma vez. O adversário da final era o poderoso Barcelona, de Ronaldinho Gaúcho, jogador criado no Grêmio. O inter era tratado como azarão. Mas aquele ano era todo colorado. Fernandão teve uma desgastante missão: marcar o volante Motta da equipe catalã. Extenuado, deixou o gramado no segundo tempo. Mas sua liderança e seu discurso antes da partida foram suficientes para mais uma glória ser alcançada. Do banco de reservas, Fernandão assistiu Adriano Gabirú marcar o gol mais importante da história do clube: 
                                        

                                     

Foto: Alexandre Battibugli (PLACAR)

             A promessa estava cumprida. Fernandão havia levado o Internacional ao topo do Mundo. O clube agora era realmente de "outra turma". A maior glória do Sport Club Internacional tinha Fernandão como grande responsável. O sonho havia se tornado realidade.
               A temporada de 2007 se anunciava com grande expectativa no Inter. Quem sabe não era a hora de um título Brasileiro? Porém, como em todos os amores, brigas e desentendimentos são comuns. A temporada acabou se tornando um fracasso, e Fernandão lesionou-se gravemente, ficando de fora por 3 meses. Para 2008, e expectativa era de voltar a fazer um grande trabalho,  e tornar o Inter novamente gigante. Fernandão marcou contra a Inter de Milão em um torneio de pré-temporada e marcou 3 gols na decisão do Gauchão de 2008, quanto o Inter bateu o Juventude por impiedosos 8x1. Porém, a relação já estava um pouco estremecida.  E em junho de 2008, Fernandão deixava o Inter, mas fazendo novamente uma promessa: voltaria um dia ao clube, mesmo que não fosse como jogador. 
               Após uma passagem pelo Al Gharafa, do Catar, Fernandão tentou voltar ao colorado. Mas a diretoria do Inter achava que não era o momento. Magoado, Fernandão acertou seu retorno ao Goiás, onde ficou por 8 meses. Em 2010, migrava para o São Paulo. Nessa passagem pelo tricolor do Morumbi, Fernandão foi desclassificado pelo Inter na Libertadores de 2010, torneio vencido pelo clube Gaúcho.  Em 2011, Fernandão deixava o São Paulo para cumprir sua promessa: voltar ao seu verdadeiro clube de coração. No link abaixo, você acompanha uma matéria sobre os times em que Fernandão atuou:

 http://alupanogramado.final.com.br/os-9-times-de-fernandao/

Foto: Edson Vara (PLACAR)
              Em 19 de Julho de 2011, Fernandão era anunciado como diretor executivo do Internacional. Em 2012, logo após a saída do técnico Dorival Júnior, Fernandão foi alçado ao cargo de técnico do Inter, mas não obteve sucesso. Sua saída acabou sendo traumática, pois, com lágrimas nos olhos, Fernandão deixava o clube que tanto amava.

Dia da demissão de Fernandão (Jornal do Almoço/RBSTV)

                

                    Após algum tempo longe dos holofotes, Fernandão voltava em uma nova missão: comentarista do SporTV. Contratado para ser um dos comentaristas da Copa do Mundo de 2014, Fernandão estava ansioso por uma grande volta ao mundo do futebol. Porém, em 7 de Junho de 2014, uma trágica queda de helicóptero culminou com a sua morte. Aos 36 anos, a morte parecia um distante fato obrigatório para Fernandão. Mas o destino é assim mesmo. Leva as pessoas em momentos inesperados. A notícia da morte do grande ídolo da torcida abalou os corações colorados. No link abaixo, acompanhe a matéria do Portal R7 sobre a morte de Fernandão:

 http://esportes.r7.com/futebol/morre-fernandao-ex-jogador-do-internacional-em-queda-de-helicoptero-07062014


Foto: Assessoria de Imprensa do Internacional

              Desde o dia de sua morte, um santuário foi criado no entorno do Beira-Rio para fãs levarem memórias de seu maior super-herói.
              Fernandão ficará para sempre na memória do povo colorado. A imagem do ídolo é até hoje gravada no coração de todos. Nunca se esqueça povo colorado: Amor como o de Fernandão, nenhum outro jogador terá pelo Internacional. Quis o destino que a viagem de despedia fosse cedo. Mas, lá de cima, o super-herói está observando o Gigante da Beira Rio. Pois, como ele mesmo cantou uma vez, "Vamo vamo Inter!" Fernandão foi um goiano que fez do Inter sua maior paixão. 
  

                              


Reportagem: Anderson Dilkin, Arneu Seibert e Renan Cassiano da Silva Neves.
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MATERIAL EXTRA

Gráficos sobre a trajetória de Fernandão no Inter: